A Teoria da Internet Morta
A Teoria da Internet Morta é uma teoria que surgiu por volta do ano de 2021 no fórum Agora Road’s Macintosh Cafe um espaço peculiar de discussões na Internet (com membros que atuaram no 4chan e demais fórus de discussões) e ganhou nova relevância com o avanço acelerado da inteligência artificial generativa. A premissa central é que a interação natural humana “morreu” por volta de 2016 e desde então a maior parte das interações e do conteúdo online como em redes sociais e fóruns é gerada por bots e inteligência artificial, criando uma paisagem digital automatizada e estéril, sem contar mais com a participação e a criatividade humana no processo criativo de conteúdo.
Os defensores da teoria citam evidências como o aumento do tráfego de bots, que já representa cerca de metade de todo o tráfego da Internet, e apontam para a proliferação de conteúdo de baixa qualidade, textos e imagens gerados por IA, e perfis inteiros de redes sociais que simulam o comportamento humano para obter engajamento. A teoria sugere que esses bots criam uma “falsa sensação de popularidade” e manipulam algoritmos, fazendo com que o conteúdo gerado artificialmente domine a rede. A parte mais radical da teoria sugere que bots distribuem as informações, amparados por influenciadores, coordenados por corporações apoiadas por governos, para controlar a opinião pública.
Um estudo recente aponta que em Novembro de 2024 a quantidade de artigos gerados por IA ultrapassou a quantidade de artigos escritos por humanos publicados na web. No entanto, a proporção de artigos gerados por IA estabilizou desde maio de 2024. O estudo destaca também que apesar da prevalência de artigos gerados por IA na web, esses artigos praticamente não aparecem no Google e no ChatGPT, não sendo possível avaliar se os artigos gerados por IA são visualizados proporcionalmente por usuários reais, mas suspeita-se que não.
A concepção e breve história da Internet

Antes da Internet existiu o BBS (Bulletin Board System) nos anos 70-90, que permitia aos usuários através da utilização de um software específico, discar através de um modem para um servidor (baseado em uma comunidade local, p. ex. em São Paulo havia o famoso Mandic BBS), e dentro desse sistema postar mensagens de texto, participar de chats, compartilhar arquivos e jogar jogos baseados em texto, um precursor dos fóruns online. No final dos anos 90 com a chegada de navegadores como o Netscape Navigator a Internet discada começou a se popularizar e com a praticidade de acesso e riqueza de recuros e conteúdos o acesso global da WWW superou o acesso aos BBS, levando muitos a fecharem. A Internet na sua concepção se tratava de espaços livres para os usuários criarem conteúdos e o disponibilizarem online. Os blogs e sites pessoais foram as primeiras ferramentas criadas por pessoas para pessoas, embora a dificuldade técnica inicial (principalmente o conhecimento de programação em HTML) fosse novidade, muitos se aventuraram nesse novos terrenos. Com o tempo grandes plataformas surgiram para apoiar aos criadores de conteúdo, uma deles é a plataforma Blogger (surgida em 1999 e comprada pelo Google em 2003), que simplificava a publicação online permitindo que pessoas sem conhecimento técnico pudessem criar e gerenciar seus próprios blogs (diários na web). Mais tarde em 2003 surgiu o Wordpress com o objetivo inicial de ser uma plataforma de blogs, mas evoluindo para um poderoso CMS (Sistema de Gerenciamento de Conteúdo) para criar qualquer tipo de site. Essas ferramentas ainda atuavam em torno dos princípios de concepção inicial da Internet:
- Descentralização por design: A arquitetura da rede foi projetada para ser distribuída, permitindo que as informações continuassem a fluir mesmo se partes da rede fossem destruídas (uma preocupação militar durante a Guerra Fria). Não havia um ponto central único de falha ou controle administrativo centralizado;
- Colaboração acadêmica e científica: Inicialmente o objetivo principal era facilitar a comunicação e o compartilhamento de recursos entre pesquisadores e cientistas em universidades e instituições de pesquisa financiadas pelo Pentágono;
- Interoperabilidade e abertura: A ideia era permitir que diferentes sistemas de computador se conectassem e trocassem dados usando protocolos abertos, como o TCP/IP, sem depender de tecnologias proprietárias;
- Foco no usuário: A meta era dar poder aos usuários (naquele contexto, a comunidade de pesquisa) para acessar dados e informações de qualquer lugar, promovendo a troca livre e a inovação “de baixo para cima”.
Os silos das Big Techs

As Big Techs (conhecidas como as grandes empresas de tecnologia e mídia digital: Meta, Google, Apple, Microsoft…) remodelaram os princípios iniciais da Internet, afastando-se dos ideais de descentralização, abertura e interoperabilidade para ecossistemas proprietários e fechados, frequentemente descritos como “jardins murados” (walled gardens) com seus negócios baseados em dados através de:
- Centralização do Poder: Em vez de uma rede descentralizada a maior parte do tráfego e das interações online ocorre agora em um punhado de plataformas dominantes que atuam como “porteiros” do ciberespaço;
- “Jardins Murados”: As Big Techs criaram ecossistemas fechados onde controlam o acesso, a experiência do usuário e crucialmente os dados. Os usuários ficam “presos” nesses ecossistemas devido aos efeitos de rede e à integração de serviços, o que limita a autonomia de escolha;
- Fim da Interoperabilidade: A interoperabilidade aberta foi substituída por sistemas proprietários e fechados. É difícil (ou impossível) para os usuários transferir facilmente seus dados ou interagir entre plataformas concorrentes (por exemplo, mover todas as suas postagens do Facebook para o Twitter ou vice-versa);
- Monetização de Dados e Algoritmos de Retenção: O conteúdo e a navegação que antes eram menos filtrados, agora são mediados por algoritmos que visam reter a atenção e sugerir consumo, transformando a experiência online em um ambiente focado em publicidade direcionada;
- Colonização Digital e Soberania de Dados: O controle massivo de dados permitiu que essas empresas exercessem um poder e influência significativos.
Em essência a promessa inicial de uma Internet livre, aberta e descentralizada deu lugar a um ambiente mais controlado, centralizado e comercializado, onde um pequeno número de empresas dita as regras para a maioria dos usuários.
Em uma visão mais prática os usuários (principalmente os mais jovens) são levados à interagir dentro da plataforma ao criar conteúdo, consumir conteúdo e dar “likes”, utilizando-se da estrutura da empresa para criar e compartilhar seu conteúdo ao invés da Internet, compactuando com o sistema de distribuição de conteúdo dessa empresa, que agora escolhe para quem e quando deve distribuir (algorítimo).
Um ponto importante quando se fala no termo “algorítimo” das Big Techs como algo perverso, pessoalmente não tenho essa visão, entendo que são sistemas modelados para garantir que seus usuários permaneçam o máximo de tempo possível dentro de seus silos, consumindo conteúdo e por consequência anúncios, que trazem retorno financeiro para a empresa. Não acredito que exista um direcionamento proposital de conteúdo específico pois o “algorítimo” precisa se modelado para sugerir conteúdos relevantes ao usuário, caso contrário ele deixará de participar da plataforma por desinteresse.
Talvez as pessoas não querem mais fazer sites, blogs e as Big Techs estão fornecendo à pessoas o que sempre desejaram, de forma simplificada (sem a necessidade de passar por uma curva de aprendizado tecnológico para criar/manter uma infraestrutura de comunicação), trazendo a facilidade de compartilhar as informações.
Os silos e a teoria
- Proliferação de conteúdo sintético: As plataformas das big techs com seus sistemas que visam maximizar o engajamento e o lucro, criam um ambiente propício para a disseminação em massa de conteúdo gerado por IA (texto, imagens e vídeos). Esse conteúdo é frequentemente otimizado para os algoritmos, não para consumo humano, resultando em uma “avalanche” de material repetitivo e de baixa qualidade que obscurece a produção humana;
- Curadoria algorítmica e a ilusão de autenticidade: Os algoritmos das big techs determinam o que os usuários veem, e podem artificialmente impulsionar conteúdo gerado por bots para simular popularidade e engajamento. Isso cria uma “ilusão” de atividade social vibrante, enquanto, na realidade, grande parte das interações pode ser entre bots ou entre humanos e bots, sustentando a premissa da Teoria da Internet Morta de que a maior parte da atividade online é falsa;
- Silos de informação fechados: As plataformas operam como silos, retendo dados e controlando o fluxo de informação dentro de seus ecossistemas. Essa falta de transparência e interoperabilidade impede a verificação externa do volume de tráfego de bots versus humanos, permitindo que as empresas gerenciem a narrativa sobre a composição do seu tráfego e o tipo de conteúdo que está sendo consumido;
- Monetização do engajamento artificial: O modelo de negócio baseado em publicidade recompensa o engajamento, independentemente de ser autêntico ou artificial. Isso incentiva o uso de bots e conteúdo de IA para “farmar” visualizações e interações, gerando receita a partir de um ciclo de conteúdo/engajamento que não envolve humanos reais;
- Obscurecimento do conteúdo humano genuíno: À medida que o volume de conteúdo de IA cresce exponencialmente (estimativas sugerem que a maioria do conteúdo futuro será gerado por IA), o conteúdo humano autêntico torna-se uma minoria, mais difícil de ser encontrado nos resultados de pesquisa e feeds de notícias dominados por material sintético e otimizado.
Em suma, os silos das big techs e seus modelos algorítmicos atuam como catalisadores e facilitadores da realidade descrita pela Teoria da Internet Morta, onde a Internet se transforma em um “teatro digital controlado” dominado por máquinas.
Aqui deixo uma observação que julgo ser importante para conscientização que é o foco na educação e no ensino das novas gerações sobre a correta utilização dos recursos disponíveis na Internet, como identificar conteúdos falsos (não acreditar de primeira no que se vê e ouve e sim pesquisar em outras fontes) e não divulgar conteúdos com temas sensacionalistas.
Projetos que simulam um mundo virtual criado por IA
Projeto Dead Internet
O projeto “Dead-Internet”, criado por “Sebby37” e disponível no GitHub, é uma pequena demonstração prática da Teoria da Internet Morta. O projeto é um “navegador” simples que gera uma web completamente falsa. Ao rodar o programa, você pode inserir uma busca em uma página inicial. A partir dessa busca ele gera uma página de resultados com links falsos que por sua vez levam a mais páginas e sites gerados por inteligência artificial.
O objetivo do criador era mostrar como a Internet pode ser facilmente preenchida com conteúdo não humano. Ele usou um modelo de linguagem grande (LLM) para gerar os artigos, páginas e até mesmo os resultados de busca, criando um universo digital de conteúdo que embora pareça funcional é inteiramente fictício. O autor observa que o projeto é uma forma de “surfar na web” que é “um pouco factual demais” e que ele se diverte com o que a IA cria.
Em suma, o projeto serve como uma experiência que ilustra de maneira divertida e assustadora a premissa da Teoria da Internet Morta, mostrando como a proliferação de conteúdo gerado por IA pode dar a impressão de um mundo online vasto, mas completamente desprovido de interações humanas reais.
Projeto wiki infinita
O projeto “Endless Wiki”, criado por XanderStrike e disponível no GitHub, é uma enciclopédia gerada em tempo real por um modelo de linguagem grande (LLM).
O objetivo do projeto é ilustrar a facilidade com que a inteligência artificial pode criar uma vasta quantidade de conteúdo. Diferente de uma enciclopédia tradicional, o Endless Wiki não possui artigos pré-escritos. Em vez disso, cada artigo é gerado na hora, com base no título que o usuário pesquisa. O autor descreve o projeto como um “experimento de alucinação” onde a maioria dos artigos é “cheia de alucinações e outros absurdos”, a menos que um modelo de linguagem muito grande seja usado. O projeto pode ser rodado localmente e é uma forma divertida de explorar a capacidade dos LLMs de gerar conteúdo coeso, mesmo que seja completamente falso. Em essência, o Endless Wiki demonstra como a Internet pode ser preenchida rapidamente com textos que parecem ser de uma enciclopédia mas são totalmente gerados por IA, reforçando a premissa por trás da Teoria da Internet Morta.
Será que estamos cada vez mais próximos da Internet Morta?

